Poder e Política

  

"(...) Os corpos melhorados, em se procriando, reproduziram-se nas mesmas condições, como ocorre com árvores enxertadas; deram nascimento a uma nova espécie que, pouco a pouco, distanciou-se do tipo primitivo, à medida que o Espírito progrediu. (...)"

 

Allan Kardec. A Gênese, págs. 171 e 172, 3ª ed., Boa Nova Editora.

 

Existem ínfimas diferenças entre o DNA humano e o dos chimpanzés e bonobos; como somos todos primatas, há muito mais semelhanças do que diferenças, diz de Waal. Destas últimas, ele assevera, as principais são a linguagem e a família nuclear.

 

Aptidões linguísticas estão ausentes neles, entretanto podem aprender alguns princípios da linguagem, como, por exemplo, expressar-se por meio de símbolos, mas não conseguem nada além do que uma criança pequenina pode realizar. Outra diferença básica é que não possuem uma estrutura familiar mais ampla como na espécie humana. Os machos não estão envolvidos com os cuidados familiares, pois quem toma conta da subsistência das crias são só as fêmeas.

 

Os chimpanzés disputam o território e as coalisões para eles são essenciais. Descreve o primatólogo que "nenhum macho pode dominar sozinho, pelo menos não por muito tempo, pois o grupo como um todo pode derrubar qualquer um.

 

(...) manter-se no topo é um exercício de equilíbrio entre expressar veementemente a dominância, mantendo os aliados satisfeitos evitando uma revolta em massa".

 

Alguns membros do agrupamento buscam frutas e as "doam" para outros, com o intuito de serem escolhidos futuramente como líderes ou para conseguir o comando do grupo.

 

Se isso nos parece familiar é porque a política humana funciona exatamente da mesma forma.

 

Entre eles, é comum formarem aliança de amigos que se autoprotegem por toda a vida. Os mais altruístas ajudam doentes e idosos a se alimentarem. Eles também apresentam senso de justiça; por exemplo: se um chimpanzé se recusa a dividir seu alimento, o grupo o castiga, não o deixando chegar perto da comida numa próxima caçada.

 

Frans de Waal nos informa a respeito do relacionamento entre dois machos que disputam o poder [1]. Notou que o poderio é a alavanca motivadora dos chimpanzés machos; para eles o poder é um refinado afrodisíaco e que, além do mais, vicia. Os machos guardam ciumentamente seu cetro de comando e não se deixam amedrontar diante de ninguém que os possa afrontar.

 

A violenta batalha entre dois chimpanzés, o jovem Luit e o ancião Yeroen na luta pelo domínio, enquadra-se com perfeição na teoria psicológica da decepção-agressividade, ou seja, quanto maior for a frustração, maior será o ódio. Para Yeroen, além de tudo, aquela não fora a primeira peleja perdida para Luit. A ferocidade do ataque pode ter sido consequência do fato de ser a segunda vez que o velho macho perdera a liderança.

 

Na primeira vez em que Luit chegou ao topo da chefia, ass inalando o fim do ancien régime (sistema político, econômico e social da monarquia francesa antes da revolução de 1789) - liderado por Yeroen −, relata de Waal que ficou abismado ante a reação deste chefe destronado, costumeiramente imponente e majestoso que, depois da derrota, ficou irreconhecível. Em meio à disputa acirrada, ele assemelhava-se a um fruto podre caído de uma árvore, debatia-se com gritos de cortar o coração, como uma criança que, durante os surtos de chilique, olha de esguelha para a mãe em busca de sinais de acolhimento.

 

Yeroen reparava em quem se aproximava dele, esperando sempre ser reconfortado pelo resto do grupo. Se o bando à sua volta fosse grande e poderoso, em especial se incluísse uma fêmea alfa, ele ganhava valentia instantânea. Contando com os defensores ao seu redor, ele reacendia o confronto com o rival. Os faniquitos de Yeroen eram, sem dúvida, mais um exemplo de hábil manipulação. O que mais fascinou o brilhante cientista foram os paralelos que fazia com a cena de apego infantil, observados com clareza em expressões como “agarrar-se ao poder” e “ser desmamado do poder”.

 

São pontes utilizadas pelo autor para caracterizar a natureza do poder. Destronado do seu pedestal, aquele macho manifestava a mesma reação de uma criança pequena, quando lhe tiramos a chupeta ou seu brinquedo favorito. Quando Yeroen percebeu finalmente que perdera a liderança, sentou-se desanimado fitando o vazio, com um olhar inexpressivo. Alheio à atividade social ao seu redor, recusou comida por semanas. De Waal chegou a pensar que o símio estivesse doente, mas o veterinário não encontrou problema algum. O antropoide era uma pálida sombra do chefão imponente que fora. Ao perder o mandato, ele perdeu a alegria de viver.

 

Encontramos na própria sociedade humana, em muitas ocasiões, transformações drásticas como essa acima descrita, notadas de modo claro em pessoas que perderam o status social ou o lugar de comando. Adotam uma postura completamente diferente daquela arrogância que exibiam antes. Ficam parecendo anos mais velhas, demonstram uma linguagem corporal lânguida, um estado de abatimento e uma grande fraqueza física e mental.

 

Em O Livro dos Espíritos, a Espiritualidade faz referência a uma primitividade que ela denomina de estado de natureza. E explica "(... ) estado natural é a infância da Humanidade e o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, sendo perfectível, e carregando em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não está destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório e o homem dele se liberta pelo progresso e pela civilização." [2]

 

Muitos homens, porém, vivem até agora num estágio infantil trazido de sua ancestral idade, presos ainda a um "estado de natureza", quase sem nenhum desenvolvimento intelectual e moral.

 

A necessidade de autoridade e de prestígio que encontramos em inúmeros homens, seja nos círculos religiosos, políticos, profissionais, seja nos esportivos, filantrópicos e outros tantos, decorre de uma "aspiração de dominar" ou de um "sentimento alfa", pois somos herdeiros biológicos/espirituais dos primatas das florestas de quem todos descendemos. Essa necessidade é proveniente, também, do complexo de inferioridade que desenvolveram em outras etapas existenciais. São mentalidades adquiridas em vidas pretéritas, ou mesmo na presente, na convivência com familiares egomaníacos e de baixa autoestima.

 

Há certas almas humanas, insaciáveis de atenção e controle, que precisam supor-se superiores para compensar a crença na sua suposta insignificância ou falta de sentido em que vivem. Inferioridade, disputa e rivalidade formam um núcleo central em sua vida, cujo objetivo primordial é obter domínio sobre tudo e sobre todos.

 

Seria uma visão por inteiro equivocada e reducionista presumir que tais fenômenos humanos são apenas subprodutos de processos econômicos e sociais; muito pelo contrário, o desenvolvimento de tais complexos é ancestral e/ou primitivo e modela personalidades, tornando-as cada vez mais ávidas pelo domínio e controle sobre tudo o que existe. Alegar categoricamente que a busca do poder é sempre errada é tão incorreto quanto afirmar que está sempre certa. De modo que não há erro algum em buscar competição e disputa de poder, desde que essa busca não seja baseada em ameaça, chantagem e sedução, mas, sim, conquistada por mérito ou qualidades morais e/ou intelectuais.

 

Não existe problema algum em competir e concorrer, nem aspirar aos feitos das pessoas e/ou almejar por igual sucesso; a única falta ocorrerá se utilizarmos um modo destrutivo de competição e métodos de politicagem que produzam danos e efeitos negativos à sociedade.

 

Em muitos momentos, as criaturas tentam contrabalançar seu sentimento de inferioridade, abraçando modos de viver em que superestimam ou exaltam a própria personalidade. Arrogância, porte megalomaníaco e ostentação desmedida fazem parte do séquito daqueles que possuem uma disputa pelo poder interiorizada de baixa autoestima.

 

Alma humana alguma é superior ou inferior a outra, e sim mais ou menos experiente do que outra. Se há algo que nos torna superiores é a nossa capacidade de amar e pensar, e nunca a de impor e decidir de modo arbitrário.

 

O apóstolo Lucas, no capítulo 22, versículo 46, de seu Evangelho, esclarece sobre as raízes das tentações: “(...) e disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai, e ora i, para que não entreis em tentação!

 

A tentação do poder não é, de modo geral, um agente externo, praticado pelos maus espíritos, atraindo-nos para o desequilíbrio. Nossos hábitos atávicos é que gritam no íntimo de nós mesmos, impulsionando-nos a perpetuar os costumes do poder desmedido e as viciações do comando. A tentação de subjugar sempre aparecerá enquanto estivermos no estado de sono, "dormindo", quer dizer, invigilantes, displicentes, inconsequentes. Ninguém é tentado, se não trouxer a tentação dentro de si mesmo.

 

O poder seduz o ignorante, o cidadão despreparado e todos aqueles que caminham sem objetivo maior, mas querem, a qualquer preço, sentir-se importantes.

 

Hammed

 

 

(Mensagem do livro ESTAMOS PRONTOS – Reflexões sobre o desenvolvimento do espírito através do tempos, psicografado pelo médium Francisco do Espíritos Santos Neto).

 

 

 

[1] Frans de Waal. Eu, Primata - Por Que Somos Como Somos. Companhia das Letras, págs. 67 e 68.

 

 

[2] Questão 776 − O estado natural e a lei natural são a mesma coisa?

 

−  Não, o estado natural é o estado primitivo. A Civilização é incompatível com O estado natural, ao passo que a lei natural contribui para o progresso da Humanidade. O estado natural é a infância da Humanidade e o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, sendo perfectível, e carregando em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não está destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório e o homem dele se liberta pelo progresso e pela civilização. A lei natural; ao contrário; rege a Humanidade inteira, e o homem se aperfeiçoa à medida que compreende melhor e pratica melhor essa lei. 

 

 

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