Hammed

Sedução e desejo

  

"Toda criatura consciente traz consigo, devidamente estratificada , a herança incomensurável das experiências sexuais vividas nos reinos inferiores da Natureza."

Emmanuel

(A Gênese, 3ª edção., pág. 172, Boa Nova Editora)

 

(Nota da editora: Recomendamos aos interessados neste assunto a leitura do capítulo intitulado, Carga Erótica, do livro Vida e Sexo, ditado pelo espírito Emmanuel ao médium Francisco Cândido Xavier. FEB Editora.

 

 

Apesar de o ser humano proceder da mesma espécie (Homo sapiens), esse traço comum da Natureza continua a ser repudiado pelo próprio homem, pois, quando ele não se reconhece nas criações e criaturas, exclui de imediato todos aqueles que julga diferentes, nomeando-os "desumanos".

Mesmo sendo herdeiros da genealogia das florestas em que viviam nossos ancestrais, muitos homens, con­victos de que abandonaram para sempre a descendência tropical, arquitetaram além da Natureza um reino à parte, eminentemente só deles.

A Espiritualidade Superior afirma: "O instinto é uma inteligência rudimentar que difere da inteligência propriamente dita, em que suas manifestações são quase sempre espontâneas, enquanto que as da inteligência são o resultado de uma combinação e de um ato deliberado. " [1]

O instinto e/ou o potencial são desencadeados por um estímulo-chave que, uma vez acionado, propaga-se automaticamente.

Já o comportamento e/ou a atitude podem ser cons­truídos a partir da influência dos processos cognitivos: educação, cultura, experiências, valores regionais, costumes e tradições de nações.

Com suas observações e pesquisas, Frans de Waal constata que chimpanzés fêmeas têm livre preferência pelo companheiro sexual. Na comunidade dos chimpanzés, há uma hierarquia bem definida. As sociedades são compostas por grupos de famílias de três a seis indivíduos, totalizando uma média de 50 animais em cada grupo. Essa hierarquia é formada por membros adultos, liderada pelo macho alfa acompanhado da fêmea alfa, que, juntos, demonstram sua autoridade e jamais permitem insubordi­nação dos outros; ele é o primeiro a se alimentar e possui primazia na cópula e escolha das fêmeas; é, enfim, aquele que controla os demais membros do grupo.

Uma fêmea, porém, pode preferir acasalar-se com um macho de posição inferior na hierarquia grupal, apesar da presença do macho alfa, que a fiscaliza. Ele procura se conservar perto dela, sem se alimentar, com pouco tempo para beber e vigia ciumentamente essa fêmea de seu bando durante muitos dias.

Comenta ainda o primatologista de Waal que, obser­vando certa vez um jovem macho fazer abordagem amorosa a uma fêmea, percebeu que, durante todo o tempo, ele olhava em sua volta com medo de que outros machos percebessem. No momento em que o símio exibia seu ardor sexual, insinuando-se fisicamente para a fêmea, um dos machos dominantes apareceu por ali. O jovem rapi­damente dissimulou e colocou as mãos escondendo seus órgãos genitais, como um menino envergonhado.

Ele também relata que cenas interessantes são vistas na floresta quando certos cientistas atraem bonobos para uma clareira, dando-lhes cana-de-açúcar; as fêmeas ado­lescentes, vendo os machos com o alimento, rodeiam-nos e insinuam-se, apresentando suas genitálias. Alguns machos recuam, tentando evitar a sedução amorosa. Mas as jovens fêmeas persistem de modo incansável até conseguirem uma cópula, que invariavelmente resulta na partilha do ali­mento. Os observadores percebiam que as jovens fêmeas pareciam se entregar a uma espécie de "mercado sexual", sabendo de antemão que seriam pagas pelo ato. Machos e fêmeas até parece que se entregam com antecedência às relações sexuais, mediante recompensa, estabelecendo "comércios afetivos".

Quando as fêmeas estão no estro, isto é, na fase de receptividade sexual, elas exibem os órgãos genitais intumescidos, pormenor anatômico externo que auxilia a identificá-Ias facilmente. De Waal acrescenta que certa vez fotografou uma fêmea bonobo adolescente grunhindo e com os dentes escancarados durante a cópula com um macho, que tinha laranjas em cada mão. A fêmea se ofereceu assim que viu os petiscos e, como esperava, saiu dali com várias frutas [2]

Assim como os bonobos, também inúmeras pessoas têm uma disposição sexual além daquela necessária para procriar e perpetuar a espécie. Isso é uma realidade in­contestável no mundo terreno, e não deve ser negada; é fato consumado.

Entretanto, não estamos aqui estimulando ou desencorajando nossos companheiros de jornada evolutiva à adesão a isto ou àquilo, na questão "sexo que visa ganho", "sexo com prazer" ou "sexo somente para procriar", mas simplesmente examinando e estudando as raízes da conduta humana e suas possíveis implicações ou consequências nos dias atuais.

Todos sabem que o ser humano só desenvolveu e/ou aperfeiçoou algo que já fazia parte de sua natureza íntima. Muitos indivíduos vivem entre o desejo sexual e a repressão social, o que podemos chamar de conflito ou enfrentamento interior, ou seja, a luta entre o instinto que há em todos e a sociedade que tenta domesticá-lo. A grande parte dos seres humanos é contida ou reprimida, e não propriamente virtuosa.

Séculos de repressão religiosa fizeram com que a maioria da humanidade se sentisse transgressora e culpada diante de Deus, quando lançava mão do sexo sem se importar com os preceitos da fé, que impunham à sexualidade um único objetivo: a procriação. Defensores dessa causa usam como exemplo o mundo animal, citando que muitas espécies têm ciclos sexuais bem delimitados. Ou seja: uma vez fora do período fértil, os animais não buscam o acasalamento, exemplificando que o sexo não tem função fora do cio.

 

O tratado etológico [3] surgiu com a finalidade de estudar o jeito de agir inato das diversas espécies no seu habitat, ou em cativeiro. Tanto os estudiosos da etologia tradicional, quanto os pesquisadores da ecologia com­portamental, também chamada eco-etologia, convidam todos a reexaminarem teses relativas à função da sexuali­dade. Os hormônios não se convertem. Não são adeptos de bulas pontifícias, regras e dogmas, e a observação dos primatas tem-nos ensinado que a busca do sexo por prazer é mais um traço da Natureza, quer aceitemos ou não.

Não pretendemos aqui bendizer ou maldizer essa ou aquela forma de ver a sexualidade. Somente propomos que todos nós repensemos as mudanças que se têm verificado nas concepções e conceitos ao longo dos tempos, pois é preciso utilizar de forma sistemática nossa fé raciocinada.

O ato sexual é a denominação dada à fase em que dois seres praticam uma ação física de junção dos seus órgãos sexuais. Na relação sexual não existe apenas uma troca de carinho, beijos e abraços que visam ao exclusivo prazer fisiológico, mas também uma permuta de recursos — mentais, emocionais, espirituais — que revigora mutuamente os enamorados, desde que entre eles haja respeito e interesse recíprocos.

No sexo, acontecem impressões íntimas que tran­sitam entre os parceiros (refazimento, calma, realização, alento e ânimo), produzidas por meio de relação física harmoniosa. Essas impressões nascem da comunhão mental e emocional entre os dois, haja vista que as sensações humanas, além de químicas e fisiológicas, são ainda espirituais e psicológicas.

Precisamos distinguir as duas funções essenciais do instinto sexual: a reprodutiva, na qual ocorre junção e troca de material genético, que é um agente de reprodução; e a nutriente, geradora de alimentos imponderáveis, reconstituinte das forças espirituais das almas, que se ali­mentam mutuamente de tranquilidade, vigor, satisfação, entusiasmo e vivacidade. [4]

O campo de estudo da etologia permite-nos com­preender melhor muitos aspectos do relacionamento dos seres humanos. É apenas desvelando a evolução do homem e voltando-nos para nossos parentes primatas que podemos ter ideia mais lúcida de todos os fatores que conduziram a humanidade até aqui.

Não é saudável mergulhar em comportamentos ex­tremados. De toda maneira, instinto e/ou desejo sexual são inerentes à própria condição humana: são atributos que se referem aos indivíduos domiciliados na Terra; por isso, não merecem críticas ou censuras, mas estudo, exame e reflexão, até que todos nós possamos encontrar o equilíbrio sugerido por Paulo de Tarso: "Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém" [5]

[1] Questão 75 - a) Por que a razão não é sempre um guia infalível?

- Ela seria infalível se não fosse falseada pela má-educação, o orgulho e o egoísmo. O instinto não raciocina; a razão permite a escolha e dá ao homem o Iivre-arbítrio. O instinto é uma inteligência rudimentar que difere da inteligência propria­mente dita, em que suas manifestaçõs são quase sempre espontâneas, en­quanto que as da inteligência são o resultado de uma combinação e de um ato deliberado. O instinto varia em suas manifestações, segundo as espécies e suas necessidades. Nos seres que têm a consciência e a percepção das coisas exteriores, ele alia-se à inteligência, quer dizer, à vontade e à liberdade.

[2] Frans de Waal. Eu, Primata - Por Que Somos Como Somos. Companhia das Letras, págs. 149 e 150.

[3] Disciplina científica que estuda o comportamento dos seres vivos no seu meio natural, sobretudo dentro de uma perspectiva evolucionista. - Dicionário eletrônico Houaiss 3.0 - Junho de 2009.

[4] Recomendamos aos interessados neste assunto a leitura do capítulo intitulado Sexo e Corpo Espiritual, item Alimento Espiritual do livro Evolução em Dois Mundos, ditado por André Luiz ao médium Francisco Cândido Xavier. FEB Editora.

 

(Mensagem do livro Estamos prontos Reflexões sobre o desenvolvimento do espírito através dos tempos, psicografado pelo médium Francisco do Espírito Santo Neto).

 

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