Hammed

Erotismo e Sociedade

  

"(...) Como não há transição brusca na Natureza, é provável que os primeiros homens que apareceram sobre a Terra devem ter pouco diferenciado do macaco pela forma exterior, e, sem dúvida, não muito mais pela inteligência. (...)

Alla Kardec

(A Gênese, 3ª edção., pág. 172, Boa Nova Editora)

 

 

Eduard Tratz e Heinz Heck [1] foram os cientistas que nomearam de forma especial os bonobos (antes chamados chimpanzés-pigmeus) e também se dedicaram à pesquisa de como eles se acasalavam. Foram esses mesmos pesquisadores que recorreram ao latim para explicar sutilmente à sociedade da época que os chimpanzés acasalavam-se more canum (como cães) e os bonobos, more hominum (como humanos).

Os bonobos não só fazem sexo em uma infinidade de posições, como também com diversos parceiros. De Waal nos informa que os bonobos refutam o hábito de que o sexo se destina apenas à procriação e calcula que três quartos de suas atividades sexuais não têm relação alguma com o ato de procriar, ao menos não diretamente, pois, com frequência, envolvem-se com membros do mesmo sexo ou buscam fêmeas fora do cio, da fase fértil. [2]

A espécie distingue-se por uma cultura matriarcal e igualitária, e a atividade sexual tem papel proeminente em sua sociedade. Nesse tipo de cultura, as fêmeas tendem a dominar os machos coletivamente através da formação de alianças e usam sua sexualidade para o controle do sexo oposto. A classificação de um macho na hierarquia social é determinada pela classificação de sua mãe.

Na comunidade dos bonobos, a vida é centrada na fêmea, que é a líder, e os machos continuam ligados à sua mãe a vida inteira. Esses símios são usados como exemplo de vida pacífica, passam muito tempo fazendo chamego uns nos outros. São comuns os casos em que eles se en­volvem em carícias e afagos como artifício de pedido de perdão depois de pequenas brigas. Ou seja, a resolução de conflitos, o "fazer as pazes" com seus semelhantes é o forte desses símios, diferentemente dos chimpanzés, cuja sociedade é dominada por machos e a tensão da perda do poder é sempre muito alta.

Na coletividade dos chimpanzés, o macho alfa de­termina pela força o seu direito de copular com as fêmeas do seu harém. São conhecidos como caçadores ardilosos e utiIizam complexas estratégias de caça, sendo capazes, inclusive, de se alimentar de outros pequenos macacos. Já os bonobos são herbívoros e alimentam-se basicamente de frutas e outros vegetais.

Ter parentesco próximo com duas sociedades com­pletamente diferentes é a chave mais útil para a compre­ensão da biologia humana e da evolução. O chimpanzé, brutal e sedento de poder, contrasta com o pacato e erótico bonobo; como dizem seus pesquisadores mais atuantes, as personalidades de chimpanzés e as de bo­nobos estão incutidas no homem. Nossa natureza é um casamento incômodo dos dois.

Se confrontos surgirem em seu reino íntimo, não os atribua ao acaso, acredite, tudo tem a sua importância de ser e nada acontece em nossa intimidade de modo fortuito ou aleatório.

Socialmente, comungamos com os chimpanzés a agressividade, o comportamento territorial, o gosto pelo poder e a dominância dos indivíduos do sexo masculino; mas também compartilhamos com os bonobos certos traços como o alto nível de empatia e a tendência à reso­lução dos conflitos por outras vias que não as da força. É por esse contraste que o primatologista e etólogo holandês gosta de dizer que o homem é um animal bipolar.

Frans de Waal, membro da National Academy of Sciences e da Academia Real Holandesa de Ciências, a maior autoridade mundial no campo da cognição primata, afirma com muita competência que, entre os bonobos, existem numerosos padrões eróticos que nada têm a ver com a reprodução, incluindo não só o beijo na boca, felação, estimulação manual dos órgãos genitais, relação sexual com parceiros do mesmo sexo e outras tantas con­dutas observadas em cativeiro e em seu habitat, e que ocorrem diariamente na vida social desses primatas.

Para eles, o único tabu é sexo entre mães e filhos. Essa diversidade de erotismo é espantosa e, muitas vezes, tem sido constrangedor colocar os bonobos em visitação pública. Alguns especialistas e estudiosos, quando se referem às suas atividades em palestras, sentem-se tão embaraçados que falam por enigmas.

A respeito dessa atitude comedida, de Waal comenta que já viu conferencistas rotularem os bonobos de "muito afetuosos" ao descreverem condutas por eles julgadas impróprias para menores de dezoito anos em qualquer cinema. É como falar de sexo, evitando referir-se ao seu próprio nome. É como ouvir uma reunião de padeiros que decidissem abolir a palavra "pão" de seu vocabulário, recorrendo a rodeios e circunlóquios [3]. Usar eufemismos melindrosos não tem lugar no discurso científico , afirma o primatólogo.

Ressalva: a questão da sexualidade continua a ser assunto tabu para muitos pais, religiosos e mesmo para universitários e doutores. Viver em passividade — fingindo que sexo nada tem a ver com as criaturas — não é e nunca foi o melhor caminho para entender ou compreender os conflitos de comportamento.

De Waal não tem a intenção de provocar em alguém a impressão de que o bonobo é um animal patologica­mente hiperssexual; ele explica essa questão dizendo que a atividade sexual dos bonobos é muito comum , bem mais do que a dos seres humanos. Como os homens, eles também fazem sexo apenas ocasionalmente e não sem parar; em vez de uma interminável devassidão, o que vemos é uma vida social temperada por breves momentos de intimidade sexual. No entanto, ter esse parente próximo tão sensual traz intimidação e ameaça para o modo como vemos nossa própria sexual idade.

Aliás, quando falamos de sexo, é bom lembrar que não foi a perversidade nem a maldade que nasceu no dia em que Eva ofereceu a Adão a maçã; o que nasceu naquele dia foi uma esplêndida virtude chamada contestação. Con­testar é pôr em dúvida a veracidade de algo por querer saber mais, é questionar alguém a respeito de alguma coisa que não se aceita como válida. A liberdade de consciência é valiosa. O livre-arbítrio é semente da ação. Quanto mais interpelamos os outros sobre as coisas que desconhecemos e não aceitamos, mais fácil fica entendê-Ias.

Em muitas ocasiões, temos a impressão de saber o que pensamos que sabemos. Por mais sólidos que pareçam os conceitos sociais e sexuais, o nosso conhecimento a respeito deles pode se ampliar em vez de ficar como uma pressuposição bem-sucedida. Criaturas comuns agarram-se a paradigmas sociais tanto quanto cientistas se apegam aos paradigmas acadêmicos, e com a mesma intensidade os religiosos se atiram sobre os paradigmas ou os dogmas de sua crença.

Tememos repensar nossos padrões sexuais com receio de que eles estejam completamente inválidos ou obsoletos, engalfinhamo-nos profundamente neles e per­demos muitos anos defendendo-os com todas as forças. É compreensível que não queiramos nos sentir vazios e frustrados, por isso, em muitas ocasiões, relutamos legi­timar nossos valores íntimos, negando sua invalidade e esterilidade.

Quem nega ter traços agressivos e libidinosos em sua intimidade, termina, no fundo, escamoteando, mas potencializa sua agressividade e sexualidade na vida so­cial. Isso tudo faz parte de nossa estrutura psicológica e de nosso grau evolutivo. Devemos assumir total responsa­bilidade diante de nossa ambiguidade, ou seja, devemos desfazer a ideia de que temos uma natureza animal por completo desvinculada de uma natureza social.

Fisicamente elas parecem ser separadas, quando se tem uma inconsciência do fenômeno, porém, estão juntas o tempo inteiro e, se não percebidas, tornam-nos vulneráveis e nos induzem a uma série de impulsos e desejos, que desembocam em atitudes involuntárias ou inconscientes. Que atitudes são essas que não vemos com clareza?

Esclarecendo melhor, os homens, sem que perce­bam, vivem numa enorme feira social de produtos eróticos.

Eles compram o erotismo dos filmes atuais, das modas e figurinos, das roupas íntimas, dos modelos e manequins, das literaturas e artes, dos trajes de banho. Sem se dar conta, dizem possuir uma postura sexy ou um poder sex appeal [4], ignorando o significado desse termo, mas apon­tam e julgam horrorizados os indivíduos lascivos e os símios devassos.

Algumas expressões são evasivas ou paliativas; são subterfúgios inventados pelo homem para que ele não entre em contato com os significados reais de certos fatos externos. Existem meios hábeis e sutis para escondermos a verdadeira razão de determinados comportamentos. Como por exemplo, muitos indivíduos dizem: sexo é uma forma de aliviar um dia estressante; casais só se re­conciliam na cama; você hoje está mais sensual; ninguém melhor que as mulheres para usar seu poder de sedução.

Os papéis sexuais, anos atrás, eram claramente definidos diante da sociedade vigente. O masculino era defensor, categórico, insensível conclusivo, provedor, defi­nitivo, convincente e persuasivo. O feminino era submisso, bondoso, compreensivo, flexível. Por que o homem não poderia plantar flores, chorar, tocar piano, cozinhar e gostar de ópera ou balé? Por que a mulher não poderia ser taxista trabalhar no mercado financeiro, jogar futebol, ser provedora do lar, halterofilista e dirigir tratores?

Qualquer irregularidade ou afastamento desses papéis claramente determinados era considerado anomalia ou desvio de conduta, levando os indivíduos a pisarem em are ia movediça . Poucos faziam objeção ou qualquer questionamento quando se tratava de tais condutas, embora muitas criaturas se sentissem pouco confortáveis enquadradas nelas. Até mesmo os testes vocacionais — ­que mostravam e/ou enfatizavam os lados psicológicos do comportamento e das motivações humanas — eram esta­belecidos a partir de conceitos tendenciosos e obsoletos, puro convencionalismo preconceituoso.

A realidade é infinitamente maior do que os códigos sentenciosos e puritanos. Preveniu Jung: "Não se pode mudar aquilo que interiormente não se aceitou. A con­denação moral não liberta; ela oprime e sufoca. Se eu condeno alguém, não sou seu amigo e não compartilho de seus sofrimentos; sou o seu opressor" [5].

O amor cristão não considera os papéis preestabe­lecidos. Anima homens e mulheres a desvendarem suas peculiaridades naturais, a descobrirem sua essência, a manifestarem suas características distintivas e fundamen­tais, sua unicidade como seres humanos. A partir daí, to­dos se respeitam e vivem felizes, não só por terem maior lucidez e livre-arbítrio, mas também pela dignidade e altivez de terem um amplo e pleno amor.

Sábio é aquele que está sempre à procura da renova­ção de conceitos, pois possui consciência de que ignora muitas coisas e busca sempre mais. Com o tempo, po­demos perceber o quanto a ignorância cansa, ou quanto nos cansou o fato de ignorar. Sabedoria com "validade vencida" volta a ser de novo ignorância.

 

[1] Nota da Editora - O nome bonobo aparece em 1954, quando Eduard Tratz e Heinz Heck propuseram um novo termo genérico para designar esses símios, antes denominados chimpanzés-pigmeus.

 

[2] Frans de Waal. Eu, Primata - Por Que Somos Como Somos. Companhia das Letras, págs. 116 e 117.

[3] Nota da Editora - Uso excessivo de palavras para tratar de um assunto, rodeando-o, sem ir ao ponto, sem objetividade.

[4] Nota da Editora - Sex appeal (inglês): capacidade de atrair e excitar as pessoas sexualmente; sexualmente sugestivo ou erótico; encanto sensual.

[5] Carl Gustav Jung. Obras Completas - vol. XI, Editora Vozes.

 

 

(Mensagem do livro Estamos prontos Reflexões sobre o desenvolvimento do espírito através dos tempos, psicografado pelo médium Francisco do Espírito Santo Neto).

 

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