O Centro Espírita e sua dimensão política

  

Xerxes Luna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I – Considerações iniciais

 

Para refletirmos sobre a dimensão política do Centro Espírita se faz necessário que definamos de que política trataremos. O conceito de política no qual estarão baseadas nossas assertivas e considerações é o formulado pelo filósofo grego Aristóteles, discípulo de Platão.

 

Para Aristóteles política é a ciência que tem por objetivo a felicidade da coletividade humana. Para ele, o fim da política é o bem, já que visa o interesse comum, sendo, portanto, uma doutrina moral e social. O termo tem origem no grego politiká, uma derivação de polis que designa aquilo que é público. Assim, a política na concepção aristotélica traz consigo o conjunto de regras ou normas propostas para nortear as relações humanas com o objetivo de obter os resultados desejados, benéficos para todos.

 

 

II – O Centro Espírita e sua responsabilidade social

 

Uma das grandes responsabilidades do Centro Espírita é a de ajudar as pessoas a viver com ética (princípios que orientam o comportamento humano) e à custa de seu trabalho digno e honrado. Para isso dispõe do Evangelho de Jesus Cristo, o maior código de ética existente entre nós.

 

Apesar de largamente conhecido, principalmente na parte ocidental do nosso planeta, ele é pouco vivido pela maioria dos cristãos, o que nos entristece, pois se seus ensinamentos fossem bem assimilados e exemplificados por cada um de nós no nosso dia a dia, a realidade social do nosso planeta seria outra, infinitamente melhor do que a atual. No que concerne aos centros espíritas, eles vêm desenvolvendo esforços significativos nesse sentido, como, por exemplo: realização de reuniões públicas de explanação do Evangelho, evangelização de jovens, evangelização infantil, ações de assistência e promoção social voltadas para as criaturas em situações de vulnerabilidade social, atendimento fraterno, assistência espiritual aos sofredores, para citar alguns. Apesar disso, ainda convivemos com dissensões dentro dos centros espíritas e entre espíritas, pois o melindre tem tocado mais profundamente nossos corações do que os ensinamentos contidos no Evangelho de Jesus.

Diante do momento por que passa a Humanidade, urge que novas frentes de trabalho destinadas à harmonia institucional e social sejam criadas e, para isso, todos somos chamados a colaborar. Nós, espíritas, não podemos ficar ausentes desse chamamento, principalmente porque temos Jesus como nosso Modelo e Guia e seu Evangelho e o Espiritismo como instrumentos referenciais de trabalho. Na criação dessas novas frentes as casas espíritas poderiam, à guisa de sugestão, abrir um novo foco de estudos intitulado “O Evangelho no cotidiano”, destinado a refletir sobre a aplicabilidade das lições do Evangelho no dia a dia das criaturas. Ao mesmo tempo em que estivessem realizando esse estudo, seus integrantes estariam fortificando sua disposição para iniciarem ou continuarem investindo na vivência dos ensinamentos do Cristo no cotidiano do seu lar e em suas intervenções na sociedade. 

 

Seriam convidados para esse estudo/reflexão todos os trabalhadores e frequentadores da instituição, preferencialmente os primeiros, quando na Casa fosse identificado algum foco de desarmonia nas relações interpessoais dos seus colaboradores.

 

III – O Centro Espírita e a política partidária

 

A política também pode ser entendida como a ciência voltada para a governabilidade de um Estado ou Nação e como arte de negociações para compatibilizar interesses. A corrente partidária, vinculada a essa concepção de política, constitui uma organização formada por cidadãos, com ideologia própria, criada e orientada para influenciar ou ocupar o poder político em uma determinada comunidade ou país, com vistas à sua hegemonia e dominação. Nesse sentido, a política orientada para servir de referência no Centro Espírita é totalmente incompatível, tanto ideológica quanto socialmente com a política partidária, pois ao contrário desta última, a ideologia espírita fundamenta-se nas lições de vida eterna trazidas pelo Cristo, pautadas, essencialmente, na Lei de Amor e nas revelações trazidas pelo Espiritismo. No aspecto social, o que anima a prática espírita é o sentimento de fraternidade e solidariedade. Não há sentimentos de dominação e de poder guiando os propósitos espíritas na sociedade. Seu único intuito, guardada sua identidade, é o de contribuir, conjunta e igualitariamente, com todos os organismos ou pessoas de boa vontade, para a implantação no nosso mundo, de uma vivência social alicerçada na fraternidade, na simplicidade, na humildade, na dignidade, na honradez e na solidariedade humana, conforme nos foi ensinada por Jesus.

Desta forma, estará faltando para com seu compromisso com o Espiritismo toda Instituição Espírita que disponibilizar suas dependências para veicular propaganda explicita ou velada de partidos ou correntes políticas ou associar o sustento de uma sequer de suas atividades, a qualquer um deles. O fato é que o espírita, como cidadão, pode e deve, se assim o desejar, apoiar o partido político com que mais se identifique. Esse direito, que lhe é exclusivo, deve ser respeitado por todos, o que não significa que o espírita, postulante a um cargo público eletivo, utilize a Instituição Espírita que frequenta para confrontar-se com outras correntes partidárias com vista a alcançar seus objetivos políticos. Primeiro porque tal comportamento é incompatível com a ética e com o estilo espírita de interagir na sociedade e segundo porque a Casa Espírita, como espaço público, acolhe pessoas das mais variadas correntes partidárias, de modo que tal comportamento poderia ser interpretado como uma predileção do Espiritismo ou da Casa por uma delas, discriminando as demais. E isso deve ser evitado a todo custo, porque a única predileção do Espiritismo e da Instituição Espírita é pela ideologia de vida eterna trazida, ensinada e exemplificada por Jesus de Nazaré.

 

 

IV – O Centro Espírita e a política de enfrentamento à pobreza humana

 

Compreendemos a pobreza como a ausência de condições que garantam a subsistência digna da criatura humana. Num desdobramento mais específico desse conceito de pobreza podemos interpretá-la segundo dois aspectos: a pobreza relacionada à carência de recursos materiais que garantam a subsistência digna das pessoas e a pobreza explicitada pela ausência de uma postura ético-moral-espiritual num indivíduo.

 

A pobreza de ordem material, para a qual estão direcionados os maiores esforços de enfrentamento, vem sendo combatida por diversas frentes; sejam elas de natureza governamental ou não governamental, até mesmo com a participação dos segmentos religiosos. Esse confronto, ao longo dos tempos, é caracterizado por ações voltadas para a melhoria do acesso das criaturas, principalmente as desafortunadas, a serviços destinados à saúde pública, educação, segurança e garantia ao trabalho. 

 

A entrega de gêneros alimentícios, enxovais, vestimentas e, em alguns casos, a preparação e o encaminhamento para o trabalho e até o acolhimento de crianças e idosos em situação de vulnerabilidade social, em creches e casas de repouso, construídas e mantidas para este fim, têm marcado de forma indelével o trabalho de combate à pobreza realizado pelas unidades espíritas. Entretanto, igual ênfase também deve ser dispensada ao enfrentamento da pobreza ético-moral-espiritual que atinge significativa parcela das criaturas, o que as torna excluídas do convívio social sadio, por se apresentarem impossibilitadas de partilhar os bens e recursos oferecidos pela sociedade, em função da deformidade do seu caráter.

 

O apoio cada vez mais intensivo às atividades de evangelização da criança e do jovem e o caminhar junto com as mocidades espíritas devem marcar a participação da Casa Espírita na tarefa de preparação dos futuros adultos, já sintonizados com a Era de Regeneração da Humanidade. Só pela educação, embasada nos parâmetros do bem, poderemos enfrentar o quadro de misérias humanas, ostentando, antecipadamente, a flâmula da vitória.

 

No que se refere aos adultos, as casas espíritas devem continuar insistindo na programação de exposições públicas doutrinárias, envolvendo temas apropriados à formação do caráter dos seus frequentadores, incentivando seu aprofundamento por meio da criação de grupos de estudos temáticos, de curta duração, aberto a todos: jovens e adultos.

 

 

V – Considerações finais

 

O Centro Espírita, como célula básica do Espiritismo e unidade fundamental do Movimento Espírita, não pode se afastar do grande propósito espírita de, em seus espaços de ação, oportunizar para as criaturas instantes de inspiração e motivação que as levem a transportar suas almas às instâncias sublimes do bem, do amor, da união e da concórdia.

 

Abrir espaço em suas reuniões ou atividades para propagandas ou discursos que induzam preferência explicita ou velada da Casa, dos seus dirigentes ou de oradores por partido político, seja ele qual for, além de ser uma afronta aos propósitos doutrinários espíritas, constitui um desrespeito aos seus frequentadores, que para ali se dirigiram com o intuito de ouvirem a explanação de um tema que eleve suas almas, e não para ouvirem um discurso político partidário que os desagrada.

Reflitamos sobre isso e mantenhamos nossa fidelidade a Jesus e a Kardec.

 

Muita Paz! 

 

Fonte: Janeiro de 2017 | Revista Reformador

 

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