O que é ser espírita? Ainda é válido nos dizermos espíritas?

Dora Incontri [1]

Nesses dias, um amigo me disse mais ou menos o seguinte: como é difícil ser espírita – quando encontro um espírita, ele me fala de coisas que não são espíritas para mim. Quando encontro um não espírita, também fala de um Espiritismo que não acho que seja Espiritismo.

Outro grande amigo agora me diz que não é mais espírita, mas Espírito, embora continue concordando com todos os princípios propostos pelo Espiritismo. Certo, mas que filosofia lhe ensinou que é Espírito imortal, com destino à perfeição?

Também soube recentemente de uma pessoa que se dizia espírita, que passou a fazer críticas – algumas bem pertinentes ao movimento espírita – e agora se afirma não mais espírita, o que seria do seu pleno direito, mas assumiu a missão pessoal de querer destruir tudo o que é espírita.

Afinal, o que está acontecendo?

Por essas e por outras que resolvi aqui tecer algumas reflexões sobre o que é ser espírita.

De fato, desde que o Espiritismo chegou ao Brasil e nos tornarmos o país mais espírita do mundo – quer dizer, o país onde mais gente se declara espírita e onde, portanto, o Espiritismo ganhou uma representatividade social – aquele Espiritismo de Kardec, fundado no século XIX foi se desbotando cada vez mais, fazendo sincretismos, incorporando práticas e conceitos, comportamentos e visões, que certamente estão longe do que Kardec pretendia.

É claro que nenhum movimento, seja filosófico, religioso ou mesmo político, se mantém estagnado no tempo, sem adaptar-se historicamente, sem agregar elementos culturais dos países ou das sociedades em que vierem a se instalar, sem abrir-se para novas reflexões, diante de outros contextos. Não poderíamos, portanto, pensar o Espiritismo por exemplo com as cores etnocentristas, de que há ressonâncias nas obras de Kardec, nem com as perspectivas sociais e históricas do século XIX.

Outra coisa, de 150 anos para cá, o planeta se modificou radicalmente. Somos hoje defrontados por problemas muito mais complexos do que na época de Kardec, que viveu num mundo sem bomba atômica, antes do holocausto, sem redes sociais, sem computadores e satélites e sem todos os desajustes humanos que povoam a sociedade do século XXI.

Mas se valorizamos a contribuição de Kardec, se ela ainda faz sentido para nós, se nos identificamos com as luzes que acendeu, precisamos centrar no que é atemporal, no que é essencial no Espiritismo, e de posse desse roteiro, desdobrarmos algo consistente para oferecer às profundas questões de nosso século.

O que se vê, porém, são espíritas despreparados para essa tarefa, ou porque se apegam à letra de Kardec, de maneira ortodoxa, ou porque procuram agregar ao Espiritismo apetrechos sem consistência, como autoajuda barata, psicologismo superficial, práticas quase mágicas, misticismos que não resistem a uma análise mais racional… Já tratei aqui nesse blog desses adendos indesejáveis que muitos querem acrescentar ao Espiritismo a ponto de desfigurá-lo.

Ora, por causa da leitura ortodoxa de alguns, por causa na miscelânea mística de outros, por causa do farisaísmo de alguns, por causa da comercialização de outros – há espíritas que se constrangem em continuar se dizendo espíritas. Há outros que preferem buscar caminhos diferentes, para não se sentirem vinculados a um rótulo com tantas contradições.

Mas eis que chamo a atenção para nosso dever de socorrer o Espiritismo dos espíritas, invocando Kardec, Léon Denis, Herculano Pires e tantos outros, que deram contribuições preciosas que não podemos abandonar ao sabor da irresponsabilidade de alguns, da vaidade de outros e da traição de muitos.

O que seria então aquilo que nos define como espíritas?

Ser espírita significa ser sectário? Nunca! O Espiritismo é universal, considerando que há verdades em toda parte. Por isso dialoga com todos os caminhos espirituais, sem perder a sua especificidade.

Mas que especificidade é essa?

Somos reencarnacionistas  há muitas religiões, filosofias e doutrinas que o são. Mas o Espiritismo propõe a reencarnação como processo educativo, de evolução – de individualidades que para sempre permanecerão individualidades. Isso é único.

Somos praticantes da mediunidade – há muitas religiões e práticas que lidam com entidades invisíveis. Mas o Espiritismo tem uma proposta de controle, racionalidade e ética para essa prática, que nenhuma corrente tem. A abordagem do Livro dos Médiuns, como um manual de como lidar com a mediunidade é única. O problema é que a maioria dos espíritas não lê, não estuda, não aplica e só se complica em relação à prática mediúnica, com todo o cortejo de mistificações, autoilusões, vaidades, que vemos por aí.

Somos adeptos da ética cristã, que se afina perfeitamente com a ética budista, com a ética hindu, com a ética judaica – porque o que há de denominador comum entre as tradições espirituais, é sobretudo o caminho do bem, que não pode ser diferente. Mas no Espiritismo, essa ética deveria vir entrelaçada a uma crítica social – e nem sempre vem na maioria dos espíritas conservadores do Brasil, mas ela está presente no Livro dos Espíritos, por exemplo, como já demonstrei num artigo, com Alessandro Bigheto. Porque a caridade tem que ser eficaz para acabar com as estruturas sociais que provocam a miséria, a pobreza e a fome e não pode apenas se interessar em distribuir mantimentos e lavar as mãos diante das grandes injustiças do mundo. Assim como o amor ao próximo não pode ser apenas um bonito discurso e não nos importarmos com os negros que são assassinados nas periferias, com as prisões lotadas e desumanas, com as mulheres violentadas e desrespeitadas, com os homossexuais perseguidos ou com as crianças, vítimas da fome, da violência e do abandono.

Os espíritas têm o dever moral de se preocupar com todas essas questões e apresentar soluções para elas, que não sejam apenas medidas paliativas de assistencialismo piegas.

Além desses três eixos fundamentais e únicos, que caracterizam o Espiritismo (e se você se identifica com eles, pode tranquilamente se dizer espírita, mesmo não frequentando nenhuma instituição espírita!) eu diria que outro aspecto que devemos evocar e preservar é a racionalidade (à moda ocidental, portanto enraizada na tradição grega) e a cientificidade (à moda ocidental também). A racionalidade nos remete sempre à possibilidade da crítica, à não submissão da razão individual a qualquer tipo de autoridade, médium ou guru, a qualquer dogma, a qualquer instituição. A cientificidade é a manutenção de um diálogo com as evidências acumuladas pela pesquisa, pela observação, mantendo-nos com um pé nas universidades, com o espírito alerta para o progresso das investigações que tenham relação com os temas da espiritualidade.

E por fim, o Espiritismo é atualmente a única forma de espiritualidade, que podemos considerar assumidamente pedagógica. Não propõe nem a salvação, como na interpretação tradicional do cristianismo, nem a iluminação, como em doutrinas orientais, mas a evolução pela educação individual e coletiva.

Diante de tudo isso, deixo aqui minha convocação àqueles que entendem e se sintam identificados com tudo o que foi dito – que considero que seja o essencial no Espiritismo: não abandonem o barco, não fujam ao testemunho e não se envergonhem de se dizer espíritas, apesar de tantos que se dizem espíritas e passam longe da proposta de Kardec! Façamos a nossa parte de salvar o Espiritismo dos mais ou menos espíritas, tornando-o um caminho sólido para os hesitantes peregrinos de nosso século!

[1] Dora Incontri é jornalista, doutora em Educação pela USP, autora, coordenadora da Universidade Livre Pampédia.

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