As funções éticas e filosóficas dos centros espíritas

Humberto Mariotti [1]

Na comunidade social espirita existe um veículo pelo qual se expressa a nova influência do Evangelho. Os centros espíritas, reunidos constituem esse veículo através do qual se está revelando a nova presença de Jesus de Nazaré. Em cada um destes centros existem as condições de comunicação que permitem ao homem ter um novo contato com o mundo espiritual. Eles constituem o novo realismo cristão, onde a mediunidade se apresenta como um órgão do Espírito de Verdade e por cujo intermédio vai configurando-se a nova vivência espiritual do Evangelho.

 

Nos centros espíritas o kardecismo se expressa como uma força popular, originando-se neles a moderna ideia espiritual e religiosa que há de pôr fim a este antigo mundo da matéria e da incredulidade. Em consequência disto, será preciso ver nos centros espíritas elos de uma cadeia espiritual cujo destino consiste em iniciar uma nova época histórica do Cristianismo e em determinar os novos direitos do espirito encarnado. Cada centro espírita, por mais modesto que seja, tem a missão de contribuir e colaborar com os propósitos espirituais que o mundo invisível objetiva. O espiritismo teve originariamente seu assento no mundo dos espíritos, porém necessitou de um mundo social, por cujo intermédio devia introduzir-se no processo da civilização terrestre. Em outras palavras, a Ideia Espírita devia penetrar no mundo material para desenvolver sua missão histórica, sendo por isto que apareceu a era dos centros espíritas. O Ideal Espírita, vivo e revolucionário, através de três grandes realidades: Espírito, Evolução e Evangelho, manifestou-se para que a nova ideologia tomasse posse de grupos humanos que, unidos entre si, constituirão a cadeia espiritual indispensável para a revelação mediúnica.

 

Esta é a nossa razão diante do Estado para justificar a existência de numerosos centros espíritas, pois sem eles o Espiritismo careceria de veículos no campo doutrinário e cultural. Os pais do direito alemão deixaram assentado que a ideia necessita do “corpo e da lei” que a sustente; nós, à luz da filosofia espírita, podemos deduzir que a essência viva do Espiritismo necessita de seu “corpo e de sua lei” como força chamada a impulsionar a formação do novo direito espiritual condicionado à evolução do indivíduo e às leis do Evangelho. Pelo que se observa na Argentina e no Brasil e em outros países americanos, podemos admitir que os centros espíritas desempenham esse importante papel dentro do Estado moderno, desde quando neles é que se estão formando as condições morais para uma nova consciência espiritual e religiosa da sociedade. Daí que todo aperfeiçoamento dos mesmos significará uma vantagem em favor da popularização do Espiritismo no mundo moderno, eis que o povo não se fará espírita por meio de academias científicas, metapsíquicas e parapsicológicas, mas se espiritualizará pela mensagem mediúnica do Espírito de Verdade que está penetrando na alma popular através dos centros espíritas.

 

A existência de centros espíritas na sociedade moderna é uma consequência da lei de sociedade, pois os povos se formaram pela associação dos primeiros indivíduos, sendo estes os veículos físicos pelos quais se expressaram as diversas nacionalidades e a alma peculiar de cada país. Até as mais poderosas religiões contam com suas igrejas para que se agrupem seus seguidores e constituam assim um poder espiritual em frente aos poderes temporais.

 

Como sabemos, a lei de sociedade é a manifestação inteligente da lei natural e o Espiritismo, como doutrina que mobiliza multidões, deverá contar com numerosos centros espíritas porque seus ideais necessitam de um médium social para as suas manifestações nos meios históricos. Por isto os centros espíritas representam a célula médium pela qual o mundo invisível toma posse do homem e da sociedade. Desse modo será necessário iniciar uma filosofia prática dos centros espíritas, posto que assim se revalorizaria o sentido de militança e difusão do Espiritismo, ao compreender-se que cada um deles se acha sob a direção desse ser coletivo do qual falou Kardec, ou seja, dos Espíritos superiores que dirigem o desenvolvimento da humanidade. Compreender-se-ia além disso que cada centro espírita é como uma caixa de ressonância espiritual e evangélica, o que significa a necessidade de estimá-lo como um instrumento do mundo invisível atuando moral e ideologicamente sobre o Povo e o Estado.

 

 

Texto extraído do livro Os Ideais Espíritas na Sociedade Moderna.

 

 

[1] Humberto Mariotti nascido em Záratec, Argentina, em 11/06/1905.

 

Foi um poeta, escritor, jornalista, pedagogo, conferencista e intelectual espírita portenho.

 

Foi presidente da Confederação Espírita Argentina de 1935/1937 e 1963/1967, da Sociedad Victor Hugo por várias gestões e diretor da revista de cultura espírita "La Idea".

 

Humberto Mariotti, em companhia de Porteiro, participou do V Congresso Espírita Internacional, realizado em Barcelona, Espanha, em outubro de 1934.

 

Foi também vice-presidente da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA) em duas gestões.

Foi atuante divulgador do Espiritismo nas imprensas espíritas brasileira, portuguesas e argentina.

 

Escreveu vários livros e inúmeros artigos para a revista "Educação Espírita", propondo uma nova filosofia da educação, não só para o "ser humano", mas principalmente para o "ser espiritual em evolução"

 

Em 10/07/1982, em Buenos Aires, Argentina, desencarna Humberto Mariotti, escritor, poeta, jornalista, expositor e filósofo espírita.

 

Obras: Dialéctica y Metapsíquica; Parapsicologia y Materialismo Histórico; El Alma de los Animales a Luz de la Filosofia Espirita; En Torno al Pensamiento Filosofico de J. Herculano Pires;

Victor Hugo, el Poeta del Más Allá; Los Ideais Espiritas en la Sociedad Moderna; Vida y Pensamiento de Manuel Porteiro.

 

 

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