Sexo e sexualidade

André Gustavo Santos Silva  [1]

“O sexo e o cérebro não são músculos, nem podem ser. Disso decorrem várias consequências importantes, das quais esta não é a menor: não amamos o que queremos, mas o que desejamos...”

(Comte-Vile, 2009)

 

 

 

Parece que nunca a relação entre sexo e espiritualidade tem sido tão discutida pelas diferentes vertentes espirituais, religiosas e esotéricas do mundo. As relações sexuais estavam diretamente relacionadas com os ciclos da natureza, da terra e da fertilidade. Nas chamadas religiões pagãs, o aspecto sexual estava presente nos rituais, mas em tempos mais recentes várias religiões cristãs esconderam ou evitaram as questões relacionadas ao sexo.

Hoje em dia, com o sexo sendo apresentado em todo lugar e com uma espécie de “retorno” das “religiões pagãs”, a discussão voltou a estar na linha de frente das questões ligadas à espiritualidade. E não seria diferente com o Espiritismo, que discute a questão abertamente há muito tempo. O fato é que em todas as manifestações do sexo – a própria ciência conclui –, o processo se inicia no cérebro – para nós espiritas, no Espírito – até se manifestar nos órgãos sexuais.

O sexo nesse sentido restrito é apenas uma das inúmeras manifestações da energia sexual, que “... é princípio universal e acha-se inserido em toda a manifestação do universo” [Luiz (Espírito) e Xavier, 2007] [2]

“Por ele, as criaturas transitam de caminho a caminho, nos domínios da experimentação multifária, adquirindo as qualidades de que necessitam; com ele, vestem-se da forma física, em condições anômalas, atendendo a sentenças regeneradoras na lei de causa e efeito ou cumprindo instruções especiais com fins de trabalho justo. O sexo é, portanto, mental em seus impulsos e manifestações, transcendendo quaisquer impositivos da forma em que se exprime, não obstante reconhecermos que a maioria das consciências encarnadas permanecem seguramente ajustadas à sinergia mente corpo, em marcha para mais vasta complexidade de conhecimento e emoção”.

Jung foi discípulo de Freud, discordou do seu mestre devido a algumas divergências sobre a libido, para este, a libido é a energia da vida com foco no sexo, mas que pode ser direcionada para outros lugares como escape (pintura, música, atividades físicas, etc.), já Jung acreditava que a libido era uma energia universal, que tanto podia ser usada para o sexo ou qualquer outra coisa.

O material vivencial apreendido pela pessoa pode ter representações que variam desde simples lembranças agradáveis da infância, com intensa e gostosa luminosidade resistente ao tempo, até terríveis experiências traumáticas envolvendo todo tipo de abusos psicológicos e físicos dolorosos terrivelmente fixados em nossas memórias.

Experiências traumáticas, pelo fato de serem perturbadoras e desagradáveis, são reprimidas, tanto consciente como inconscientemente. Esses mecanismos, com funções psicologicamente lenitivas, acomodam as experiências emocionalmente dolorosas na profundidade do inconsciente. Dependendo do nível de energia agregada a esses complexos psíquicos, alguns deles se farão presentes na consciência indefinidamente, independentemente de nossa vontade, de nosso consentimento ou nosso controle consciente.

Os complexos psíquicos fortemente carregados de energia (libido), mesmo estando reclusos na profundidade do inconsciente, poderão se manifestar sutilmente e indiretamente através de nossas atitudes, de nosso humor, de nossa fala, audição, de visões, sonhos, fantasias, enfim, esses complexos psíquicos poderão “contaminar” toda atitude existencial.

A influência que o material psíquico reprimido exerce na vida da pessoa é, além de inegável, variada de acordo com sua carga energética (libidinal). Os casos de repressões com intensidade libidinal muito forte podem estar relacionados a patologias mentais francas, assim como, inversamente, podem se relacionar apenas a certos desconfortos emocionais, muitas vezes considerados “normais”, os complexos psíquicos impregnados por energia mais tênue e fraca.

Em concordância com a teoria psicanalítica, na obra espírita Evolução em dois mundos [Luiz (Espírito) et al., 2003], André Luiz [4] aborda que,

“Daí nascem as psiconeuroses, os colapsos nervosos decorrentes do trauma nas sinergias do corpo espiritual, as fobias numerosas, a “histeria de conversão”, a “histeria de angustia”, os “desvios da libido”, a neurose obsessiva, as psicoses e as fixações mentais diversas que originam na ciência de hoje as indagações e os conceitos da psicologia de profundidade, na esfera da Psicanálise, que identifica as enfermidades ou desajustes do instinto sexual sem oferecer-lhes medicação adequada, porque apenas o conhecimento superior, gravado na própria alma, pode opor barreiras à extensão do conflito existente, traçando caminhos novos à energia criadora do sexo, quando em perigoso desequilíbrio” .

E qual a relação entre sexo e espiritualidade? No Livro dos Espíritos, em resposta à questão “Os espíritos têm sexo?”, os Espíritos esclarecem [5] (Kardec, 2007):

“Não como o entendeis, porque os sexos dependem da constituição orgânica. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na afinidade de sentimentos.”

Em Evolução em dois mundos (op. Cit), “... a alma guarda a sua individualidade sexual intrínseca, a definir-se na feminilidade ou na masculinidade, conforme os característicos acentuadamente passivos ou claramente ativos que lhe sejam próprios. A sede real do sexo não se acha, dessa maneira, no veículo físico, mas sim na entidade espiritual, em sua estrutura complexa”.

 

Segundo Lisso [7] Ref. Não encontrada:

“As forças sexuais são a base da criação do Espírito em todos os planos da vida e em todos os períodos de desenvolvimento da matéria orgânica durante a reencarnação. Determinam não só os trabalhos em geral, as obras de todos tipos (artísticas, científicas, sociais etc.), como também a permuta de forças positivas entre seres que se amam”.

E continua,

“A lei de sintonia a partir dos sentimentos afins, estabelece a ligação entre os seres por exteriorização nas ondas mentais e, consequentemente, na ação. O ato sexual, do ponto de vista biológico é apenas uma das formas de sua manifestação”.

Abordando Vida e Sexo [Emmanuel [8] (Espírito) e Xavier, 1970], Emmanuel refere que

“... atributo não apenas respeitável, mas profundamente santo da natureza, exigindo educação e controle. Sexo é espírito e vida, a serviço da felicidade e da harmonia do Universo. Conseguintemente, reclama responsabilidade e discernimento, onde e quando se expresse. Por isso mesmo, nossos irmãos e nossas irmãs precisam e devem saber o que fazem com as energias genésicas, observando como, com quem a para que se utilizam de semelhantes recursos, entendendo-se que todos os compromissos na vida sexual estão igualmente subordinados à Lei de Causa e Efeito; e, segundo esse exato princípio, de tudo o que dermos a outrem, no mundo afetivo, outrem também nos dará”.

Em Mateus, V: 27-28, JESUS nos alerta quanto a pratica da infidelidade,

“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo o que olhar para uma mulher, cobiçando-a, já no seu coração adulterou com ela”.

A infidelidade é o descumprimento de um compromisso de fidelidade para com o outro e para conosco advindo de um sentimento negativo que se manifesta através do pensamento e da ação. Instinto primitivo e histórico sendo utilizado a milênios para pura satisfação dos nossos desejos. Lembrando André Luiz no livro Sinal Verde (Luiz (Espírito) e Xavier, 2004): “jamais brinque com o sentimento do próximo” e “toda pessoa que lesa outra nos compromissos do coração está fatalmente lesando a si própria”.

Já a castidade, refere-se à abstinência de relações sexuais. Nas religiões abraâmicas, é uma das regras para manter-se ao lado de Deus. Nas religiões e crenças orientais, como o budismo, é vista como o caminho para atingir a libertação ou iluminação dos sofrimentos e decepções humanas. Sendo a virtude que modera o prazer vinculado à propagação da espécie, recebe também a denominação de Santa Pureza porque se crê ser impossível vivê-la sem a ajuda do Espírito Santo, segundo o catolicismo. Segundo Divaldo Franco / Manoel Philomeno de Miranda, em Sexo e Obsessão [Franco e Miranda (Espírito), 2002] [9], refere que “Muitos espíritos têm sofrido e trazido consigo na reencarnação oportuna as dores da abnegação forçada, do conceito equivocado de impureza no sexo”. 

Direcionar as forças sexuais para criações em outros planos depende de educação; e é alternativa válida, não obrigatória, seja para heterossexuais ou homossexuais.

Masturbação é o ato da estimulação dos órgãos genitais, manualmente ou por meio de objetos, com o objetivo de obter prazer sexual, seguido ou não de orgasmo, sendo uma prática sexual não penetrativa. É observada em muitas espécies de mamíferos, especialmente nos grandes primatas. O ato é socialmente condenável em algumas culturas, embora não seja uma doença e nem cause doenças. Como forma de sexo, cabem as mesmas regras para o sexo em geral, que são controle e equilíbrio na sua prática para que não se transforme em vício, gerando dispersão da força criadora espiritual.

Homossexualidade refere-se à característica ou qualidade de um ser humano que sente atração física, estética e/ou emocional por outro ser do mesmo sexo. Deixou de ser considerada doença pela Associação Americana de Psiquiatria em 1973. No Brasil, em 1985, o Conselho Federal de Psicologia deixou de considerar a homossexualidade como um desvio sexual e, em 1999, estabeleceu regras para a atuação dos psicólogos em relação às questões de orientação sexual. Portanto, para a ciência a homossexualidade não precisa de “cura”, visto não ser uma doença. Hoje é considerada apenas como uma “orientação sexual” dentro de uma “diversidade”.

Segundo André Luiz em Sexo e Destino [Luiz (Espírito) e Xavier, 2003] [10], a homossexualidade,

“... no mundo porvindouro os irmãos reencarnados, tanto em condições julgadas anormais, serão tratados em pé de igualdade no mesmo nível de dignidade humana...”... “Erro lamentável é supor que só a perfeita normalidade sexual, consoante as respeitáveis convenções humanas, possa servir de templo às manifestações afetivas. O campo do amor é infinito em sua essência e manifestação.”

Para Emmanuel no livro Vida e Sexo [Emmanuel (Espírito) e Xavier, 1970] [11]

“Em nenhum caso, ser-nos-á lícito subestimar a importância da energia sexual que, na essência, verte da Criação Divina para a constituição e sustentação de todas as criaturas. Com ela e por ela é que todas as civilizações da Terra se levantaram, legando ao homem preciosa herança na viagem para a sublimação definitiva, entendendo-se, porém, que criatura alguma, no plano da razão, se utilizará dela, nas relações com outra criatura, sem consequências felizes ou infelizes, construtivas ou destrutivas, conforme a orientação que se lhe dê”.

 

 

Referências:

 

  • COMTE-VILE, S. Pequeno tratado das grandes virtudes: São Paulo: Editora WMF Martins Fontes 2009.

  • EMMANUEL (ESPÍRITO); XAVIER, F. C. Vida e Sexo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1970.

  • FRANCO, D. P.; MIRANDA(ESPÍRITO), M. P. D. Sexo e Obsessão. Salvador. Bahia. Editora Leal, 2002.

  • KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2007. 647 ISBN 978-85-7328-390-7.

  • LUIZ (ESPÍRITO), A.; XAVIER, F. C. Sexo e Destino. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2003. 400 ISBN 9788573283419.

  • LUIZ (ESPÍRITO), A.; XAVIER, F. C. Sinal Verde. Brasília Petit, 2004. 144 ISBN 9788572531153.

  • LUIZ (ESPÍRITO), A.; XAVIER, F. C. Missionários da Luz. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2007. 376.

  • LUIZ (ESPÍRITO), A.; XAVIER, F. C.; VIEIRA, W. Evolução em Dois Mundos. Brasília: FEB Editora, 2003. 248 ISBN 9788573283396.

 

 

[1] André Gustavo Santos Silva: Cirurgião plástico, Homeopata, Chefe do Serviço de Feridas Complexas em Propriá e Itabaiana - Sergipe, tesoureiro da Ame Sergipe, trabalhador espírita do Grupo Espírita Irmão Fego

 

 

Fonte: Revista Saúde & Espiritualidade – nº 20 • J A N | F E V | M A R 2 0 1 6

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